Se perguntarmos a alguém se a sua vida faz sentido, normalmente esse alguém responde que sim: a maioria das pessoas, por razões subjectivas, acredita que a sua vida faz sentido. E se nos perguntarmos se acreditamos, por exemplo, que a vida de Hitler fazia sentido para ele próprio, também acreditamos que Hitler terá encontrado o seu sentido subjectivo de vida — pelo menos até ao seu alegado suicídio.
Coloca-se, então, o problema de saber se o sentido subjectivo de vida, em si mesmo, faz sentido: ou seja, a impressão subjectiva de levar uma vida com sentido não é suficiente para garantir que essa impressão esteja correcta — porque, de outra forma, teríamos que admitir que o sentido subjectivo de vida de Hitler também seria válido e correcto para nós. Isto significa que temos que considerar aspectos que transcendem o sujeito e que vão para além dele.
O ser humano constitui uma parte de uma totalidade. A parte recebe o seu sentido da totalidade, e a parte só pode ter sentido se a totalidade tiver sentido — o sentido orienta-se pela totalidade. Isto significa que a vida não pode ter sentido por si mesma [isolada da totalidade]. Quando alguém diz que a sua vida faz sentido meramente por razões subjectivas, esse alguém coloca-se ao nível de um animal irracional — e é isso que tem vindo a acontecer com a cultura europeia: por pressão das elites, o sentido da vida tem sido reduzido ao estatuto lógico de um flato.
Quando dizemos que a totalidade não tem sentido, por exemplo :
“O universo que observamos tem precisamente as características com as quais se conta quando, por trás dele, não existe nenhum plano, nenhuma intenção, nenhum bem ou mal, nada, além da cega e impiedosa indiferença” (Richard Dawkins, "A Desilusão de Deus")
isso significa que ao eliminarmos o sentido da totalidade — “não existe nenhum plano, nenhuma intenção, nenhum bem ou mal, nada” — reduzimos o sentido da vida humana a si mesma, animalizando e irracionalizando o Homem, circunscrevendo a vida humana ao estatuto lógico de uma excrescência flatulenta.
Para que a vida possa ter um sentido independentemente da subjectividade e da objectividade, o ser humano foi acumulando, ao longo da pré-história mas principalmente da história, um capital de experiência, criando assim um terceiro intermédio que inclui a língua, o pensamento, a religião e a experiência de uma cultura ao longo de milhares de anos; surgiu a filosofia que antecedeu a ciência contemporânea. A ciência e a religião são métodos de uma interpretação do mundo dependente da cultura que é o terceiro intermédio que ultrapassa as categorias de subjectivo e objectivo.
Ora, o que assistimos hoje é um ataque das elites europeias à própria cultura e à história através da imposição de uma cultura presentista de sentido da vida em si mesma — tal como Hitler e o nazismo atacaram a cultura e a história —, tentadndo assim reduzir a vida humana ao estatuto lógico de um peido.