Conforme pudemos verificar ultimamente com a discussão do Orçamento de Estado, em termos de ética política, o que distingue a posição de Passos Coelho e o seu governo, por um lado, e a de Cavaco Silva [e, em parte, a de António Seguro], por outro lado, são dois tipos distintos de utilitarismo: Passos Coelho (mais conhecido por “Pernalonga”) adopta o utilitarismo clássic o que evoluiu de Bentham e de Stuart Mill — mas não só: José Sócrates, o Bloco de Esquerda e uma pequena parte do Partido Comunista partilham com Passos Coelho este tipo de utilitarismo — a que se convencionou chamar de “utilitarismo de acto”, e Cavaco Silva e Seguro — mas não só: por exemplo, Manuela Ferreira Leite e uma parte dos dirigentes do CDS/PP incluem-se neste grupo — adoptam uma posição de ética política consentânea com o “utilitarismo de regra” (conforme J.J. Smart, M. Singer, R. Hare).
O “utilitarismo de acto” (Bentham e seus posteriores desenvolvimentos) baseia-se em três premissas essenciais: um princípio descritivo, um princípio descritivo, e um princípio legislativo.
  1. O princípio normativo (ou seja, o estabelecimento de uma norma) define que a sociedade deve assegurar a maior felicidade para o maior número de indivíduos.
  2. O princípio descritivo parte de um putativo facto segundo o qual cada indivíduo age, apenas e só, tendo em vista a satisfação do seu interesse próprio e egoísta, sendo que o egoísmo é elevado ao nível de princípio supremo de conduta.
  3. O princípio legislativo atribui ao legislador (ao Estado), e em função dos dois princípios anteriores, a tarefa de “harmonização dos egoísmos”, para que assim se possa realizar a sociedade de maior felicidade para o maior número.
Desta “harmonização dos egoísmos” surge o conceito de “democracia de protecção”, que se baseia na tese segundo a qual todos os modos de vida e comportamentos são equivalentes — o que significa a ausência de hierarquia de valores e o império do relativismo ético — desde que permitidos por lei, segundo o conceito de “utilidade cardinal” de Pareto e segundo a sua falácia de um suposto “princípio de optimização”: por exemplo, uma mudança dos costumes por via da lei (engenharia social) é conveniente se pelo menos um indivíduo ganhar sem que ninguém perca (em verdade, o "princípio de optimização" é um sofisma).
O utilitarismo de acto conduz inexoravelmente a uma sociedade sacrificial, na medida em que o princípio da maior felicidade para o maior número pode perfeitamente promover a negligência dos interesses do menor número — e até eliminar radicalmente os interesses de uma minoria, como podemos verificar no aborto livre que elimina radicalmente o direito à vida de uma minoria que não tem meios de defesa.

O utilitarismo de regra parte do princípio segundo o qual a avaliação da consequência de uma acção individual se faz por via de uma regra geral que tem em vista o bem comum mediante uma satisfação estrutural da sociedade. Isto significa que uma acção que infrinja essa regra geral pode até produzir um beneficio global imediato e pontual — por exemplo, destruindo as regras de uma instituição, como foi o caso do “casamento gay” que destruiu o próprio casamento — mas o seu feito pernicioso ultrapassa, a longo prazo, o saldo positivo imediato decorrente dessa acção.
Segundo o utilitarismo de regra, uma determinada acção política que infrinja uma regra geral tende a minar a confiança nas instituições que mantêm o vínculo social, representando assim um custo social extremamente elevado que justifica a rejeição dessa acção política.

Por paradoxal que seja, e do ponto de vista da ética política, o PSD do Pernalonga “alinha” com o Bloco de Esquerda do Anacleto; por isso é que, se descontarmos os aspectos puramente económicos, os simpatizantes deste Partido Social Democrata até se dão razoavelmente bem com os simpatizantes do Bloco de Esquerda. Em contraponto, torna-se incoerente a presença, neste governo, de alguns membros do CDS/PP.