Eu vou comentar este texto porque o preconceito negativo que ele encerra pode ser aplicado a mim próprio. Trata-se de um erro.
Em primeiro lugar, confunde-se Kant com Hegel, por exemplo, sendo que este último comandou totalmente a Alemanha do século XIX, influenciando não só a filosofia, a política, mas também a teologia. Esta confusão parte da falsa premissa, comummente aceite, segundo a qual Hegel é herdeiro das ideias e continuador da filosofia de Kant, o que é absolutamente falso! O próprio Kant, no fim da sua vida, recusou ver, na filosofia de Fichte, a continuidade das suas ideias; e por dedução, o mesmo se aplica a Hegel.
É falso que a [falsa] dicotomia, estabelecida por Kant, entre o fenómeno e o númeno seja um óbice ou uma dificuldade para a religião — e isto por uma razão muito simples: a própria ciência, por via da física quântica, deu razão a Kant: essa dicotomia é, na realidade, uma falsa dicotomia; em vez disso, Kant constatou apenas a condição da realidade humana.
É um facto absolutamente incontestável que aquilo que percepcionamos através dos nossos sentidos (o “fenómeno” kantiano) não equivale nem corresponde àquilo que o fenómeno é, intrinsecamente, (a “coisa em si”, ou “númeno” kantiano). E é um facto que aquilo que o fenómeno é, intrinsecamente, não é passível de ser explicado pelo ser humano (embora possa ser, até certo ponto, descrito, mas não pode ser explicado) — porque o ser humano consciente encontra-se dentro de uma dimensão macroscópica do espaço-tempo sujeito à entropia da força da gravidade, limitado pela relação sujeito / objecto. Mas aquilo que o fenómeno é, intrinsecamente, pode ser intuído — a intuição é uma forma de inteligência e um meio de conhecimento; e é aqui que entra a religião, segundo Kant.
Por outro lado, a física quântica veio demonstrar que as probabilidades da existência de uma ligação estreita entre religião e ciência, são enormes. E foi isto que Kant intuiu no século XVIII! Portanto, quem diga que a religião passou a ser “um fenómeno puramente subjectivo”, e que “deixou de se relacionar com a realidade", “por culpa de Kant”, incorre em erro grosseiro. Kant cometeu erros, mas não neste caso.