1. A partir da ausência de complexidade em uma determinada cultura, não só se considera essa simples cultura como equivalente a uma outra cultura complexa, como se utiliza essa ausência de complexidade para tentar explicar a religião como uma “construção cultural e social” por via da linguagem.
  2. O texto classifica também a ciência como sendo uma “construção social”, na medida em que as leis da ciência são abstraídas da realidade empírica, concreta e objectiva, através de leis gerais abstractas e que valem teoreticamente em qualquer ponto do universo — por exemplo, a lei da gravidade é retirada do concreto empírico por abstracção e assim transformada em lei, e por isso ela é válida em qualquer ponto do universo.
    Portanto, segundo esse texto, não só a religião mas também a ciência — na medida em que decorrem de “abstracções da linguagem” — são “construções sociais e culturais”.
  3. A tribo Piraha tem 420 pessoas e viveu totalmente isolada na floresta da Amazónia quiçá há milénios até ao primeiro contacto com os portugueses. Ora, é este exemplo de 420 pessoas isoladas do mundo há milhares de anos que — segundo o texto — se transforma assim na bitola da complexidade cultural suficiente para classificar sociedades muito mais complexas como as que surgiram crescente fértil do médio oriente. Extraordinário raciocínio!
  4. Pelo mesmo tipo de raciocínio, quem escreveu o texto poderia defender a ideia segundo a qual, os leões, por exemplo, não têm religião porque não têm linguagem, e que, portanto, a religião é um mero produto da linguagem; ou seja, segundo o escriba, se os animais falassem, teriam religião...!
    Vejam bem como o raciocínio é extraordinário: bastaria retirar a linguagem ao ser humano para que este se transformasse em uma espécie de leão. A diferença entre um leão e um ser humano decorre da presença da linguagem neste último; de resto, os leões e os humanos são equivalentes. Portanto, conclui-se que “se a minha avó tivesse rodas seria um camião; mas como ela não tem rodas, não é um camião”. Excelente raciocínio!
  5. Com jeitinho, o texto também falaria em Mogli, o menino criado pelos lobos da floresta tropical indiana, e que, por isso, alegadamente não teria religião.
  6. O próprio texto refere que os tais 420 Piraha isolados na Amazónia viam espíritos; e simultaneamente, o texto diz que os Piraha não tinham religião. Extraordinária coerência!
  7. No planeta Terra existem os seguintes desertos: Sahara, Arábico, Kalahari (África do Sul), australiano central, Gibson (Austrália), Great Sandy (Austrália), Great Victoria (Austrália), Mojave (Estados Unidos), Sonora (Estados Unidos), Chihuahua (México), Thar (Índia), namibiano (Namíbia), Atacama (Chile), Great Basin (Estados Unidos), Colorado Plateau (Estados Unidos), Patagónia (Argentina), Kara-Kum (Uzbequistão), iraniano (Irão), Taklamakan (China), Góbi (China). E adicionalmente temos os desertos árctico e antárctico, mas vamos desclassificar estes dois últimos porque nunca tiveram uma população significante.
    Perante este facto concreto que é a existência de múltiplos desertos no planeta Terra, o autor do referido texto descobriu que "o monoteísmo surgiu por causa dos desertos no oriente médio" [basicamente, o Sahara e Arábico], mas naturalmente que ele não consegue explicar por que é que não apareceram outros monoteísmos em outros tantos desertos do planeta.
    Constatamos, pois, como esse argumento é perfeitamente idiota.
  8. O autor desse texto utiliza a retórica mais ou menos encantatória, ao bom estilo sofista, para ludibriar o transeunte. Naturalmente que a sua (dele) narrativa é longa, como convém aos escritos de “gente ilustrada que sabe o que diz”. E, como todo o sofista, a longa narrativa serve para disfarçar a ignorância que se esconde por detrás de um gongorismo melífluo.
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