"Antes de mais , é evidente que o processo de dúvida metódica evolui sob a supervisão da faculdade racional. Contudo, Descartes afirma que “rejeita” como falsos todos os raciocínios que antes tinha tomado por demonstrações.
Ora, não parece lógico limitar a rejeição unicamente aos próprios raciocínios. Os raciocínios não aparecem sozinhos e são, pelo contrário, o produto da razão humana. E, se os raciocínios foram erróneos, isso é por que o seu emissor, a razão, não pode ser considerada como uma instância absolutamente fiável. Mas, nesse caso, como poderemos confiar nela para o resto do processo?"

  • O mundo [macroscópico], tal como o percebemos com os nossos sentidos, é uma construção do nosso cérebro. A dúvida metódica de Descartes tem a ver com essa realidade, ou seja, ele apercebeu-se [por intuição e dedução lógica] que o mundo é uma construção do nosso cérebro.
  • A dúvida de Descartes é filosófica (um problema teorético) e não uma dúvida prática (um problema prático): “o mundo [macroscópico], tal como o percebemos com os nossos sentidos, é uma construção do nosso cérebro”.
  • Porém, os critérios [o software] segundo os quais o nosso cérebro [hardware] constrói o mundo são critérios compatíveis com o mundo [macroscópico] exterior [devido à evolução e adaptação ao meio] — independentemente do nosso cérebro — porque se assim não fosse, a ciência e a tecnologia (mas também a nossa sobrevivência quotidiana) não seriam possíveis. Se as construções do mundo estivessem em desacordo com o mundo [independente do nosso cérebro], não teríamos nenhuma hipótese de sobrevivência.
  • Ao nível do quotidiano e/ou ao nível científico, a nossa razão oferece resultados bastante satisfatórios; o problema começa quando entramos na realidade quântica, e/ou quando passamos ao nível do fundamental e colocamos questões sobre os últimos princípios do mundo, ou seja, quando queremos tirar conclusões que vão para além do nosso mundo da experiência e que são relativas à Totalidade da qual o nosso mundo da experiência constitui apenas uma parte.

  1. A falsidade ou a veracidade de um raciocínio dependem da razão, mas a razão não depende da falsidade ou veracidade de um raciocínio. O autor do texto citado faz ali uma pequena confusão: a razão é anterior ao raciocínio e, por isso, aquela não depende deste.
  2. A razão é a capacidade de abstracção em relação aos fenómenos [objectos] e de descobrir os princípios que lhe estão subjacentes. Estes princípios, descobertos pela acção da razão (o raciocínio), podem ser falsos ou verdadeiros; e podem até ser considerados falsos sendo verdadeiros, e ser considerados verdadeiros sendo falsos [Karl Popper].
  3. Se a razão é a capacidade de abstracção em relação aos fenómenos [objectos], o que pode estar errada ou correcta é a lógica [raciocínio] que decorre dessa abstracção, e não a abstracção em si mesma. Portanto, se os raciocínios podem estar errados ou correctos, essas qualidades dos raciocínios não comprometem o princípio fundamental de acção da razão. Neste sentido, a dúvida do autor do texto em relação a Descartes não tem razão de ser.
  4. O erro de Descartes é que ele parte do princípio de que todos os seus raciocínios [aplicados ao mundo macroscópico] estão errados e que, portanto, não existem raciocínios correctos ou verdadeiros — o que aproxima a teoria de Descartes da tese do irlandês Berkeley que é, de facto, um positivista. A dúvida radical de Descartes está na origem remota do positivismo.
    E aqui, já o autor do texto citado tem razão, porque se todos os raciocínios são falsos, e se todas as nossas categorias lógicas estão erradas, já estaríamos todos extintos.

O. Braga | Terça-feira, 15 Novembro 2011 at 4:01 am | Categorias: filosofia | URL: http://wp.me/p2jQx-9a3