“O rigor lógico, a agudeza da inteligência e a vastidão dos conhecimentos permitem-lhe construir um sistema filosófico extremamente coerente e realista a partir dos princípios aristotélicos.
Todavia, o método escolástico infunde-lhe uma inegável frieza. O recurso maciço às definições, distinções e citações dificilmente poderia emocionar qualquer auditório. A sua obra consulta-se, mas não se lê. Para usar os termos de Bloom [Harold], tem força intelectual mas falta-lhe o fulgor estético.”
--- José Mattoso, referindo-se a S. Tomás de Aquino, in “Memória & Sabedoria”, pág. 189, Edições Húmus, 2011 [os sublinhados são meus, e os parêntesis também]

L' Esprit du Temps
José Mattoso é um especialista em história e cultura medievais, e por isso qualquer crítica da minha parte em relação a seja o que for que ele escreva acerca da Idade Média, vai certamente parecer uma heresia. Vivemos no tempo da técnica e da especialidade imune à crítica oriunda do vulgo que se caracteriza pela falta de um alvará de inteligência, e José Mattoso não foge ao espírito do tempo.
Neste textículo, José Mattoso corrobora a opinião de Harold Bloom, expressa no seu livro “Onde Está a Sabedoria?” [2004], e que parte das seguintes premissas [entre outras que não interessa agora abordar]:
  • Na Idade Média não existiu “literatura sapiencial”;
  • Santo Agostinho, que poderia ser a excepção à regra no que respeita à literatura sapiencial, acaba por não recolher as condições dessa “literatura sábia” porque, alegadamente, as suas ideias [as de Santo Agostinho] incentivam à guerra e à destruição [sic].
  • Nietzsche é considerado por Bloom como um sábio literato, mas S. Tomás de Aquino já não o é.
José Mattoso pode ser um esperto em Idade Média, mas parece-me que nunca leu, por exemplo, Eric Voegelin, porque quem o lê pode facilmente imaginar um homem sentado dentro de uma banheira cheia de gelo até à cintura, enquanto escreve com a sua Typewriter [no tempo de Eric Voegelin ainda não existiam computadores pessoais]. Uma das características principais dos textos de Eric Voegelin é a ausência de fulgor estético — e talvez por isso é que este autor é relativamente desconhecido e até desprezado nos meios académicos.
Decididamente, um dos critérios sine qua non da “literatura sapiencial” não pode ser o “fulgor estético”; este critério é absurdo.
Segundo este critério, o “Mein Kampf” de Hitler poderia pertencer à “literatura sapiencial” da humanidade, porque certamente terá mais fulgor estético do que qualquer dos livros de Eric Voegelin. E naturalmente que este último, segundo Harold Bloom e José Mattoso, não faz parte dos “sábios literatos” da humanidade. E Nietzsche, porque escreve bem, é um sábio literato, independentemente das ideias exaradas nos seus textos. Um absurdo.
“A poesia morreu, asfixiada pelas metáforas” / “A relatividade do gosto é desculpa que adoptam as épocas que o têm mau.” / “Depois de se alojarem em uma mente norte-americana, as ideias passam a saber a Coca-cola.” — Nicolas Gomez Dávila
Harold Bloom é um caso de alguém que vive de um Zeitgeist politicamente correcto e, simultaneamente, critica o politicamente correcto; respira o ar que ele próprio considera impuro; cospe no prato que come. Embora ele o negue, Bloom é um descontrucionista; e a sua negação faz parte dessa lógica de quem se alimenta daquilo que ele próprio critica. Harold Bloom é um anticristão primário que, por sua vez, critica os anticristãos primários em nome de uma putativa sageza benevolente; Bloom é um dos paradigmas humanos do absurdo do nosso tempo.
E, de certa forma — surpreendentemente — José Mattoso embarca na mesma carruagem da moda cultural do nosso tempo. Das duas uma: ou José Mattoso concorda com a essência do livro de Bloom, o que é muito grave para alguém que se considera especialista na Idade Média; ou não concorda mas não quer deixar de participar no Esprit du temps, o que é lamentável.